2018, O ANO QUE EU DECIDI “SAIR DO ARMÁRIO”

Eu tinha 27 anos. Há 9 deles estava sofrendo com a indefinição, foi um processo demorado e doloroso, mas eu finalmente me assumi, é tão maravilhoso “sair do armário!”

Lembro-me muito bem da cara de choque do meu marido, a primeira coisa que ele me perguntou foi: “o que aconteceu contigo”?!

Eu tinha acabado de vivenciar mais um momento “Eureka”. Estava em  uma formação de coaching, e naquele dia tinha feito uma ferramenta chamada  linha do tempo. A partir dela, consegui juntar os fios soltos da minha história e era o que eu precisava pra me posicionar em relação a algo que me incomodava a bastante tempo.

Minha história é marcada por reiteradas incursões de autoconhecimento. Essa vontade insaciável de descobrir  minha essência e qual é meu papel no mundo me acompanha por longa data.

Aos 13 anos saí do Maranhão com um plano bem definido. Minha meta envolvia morar em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, concluir o ensino médio, fazer faculdade, arrumar um bom emprego, comprar uma Pajero Full, ter uma coleção de Tailleur e outra de vestidos tubinho.

Pois bem, terminei o ensino médio, passei em Direito na UFMS, mas no segundo ano de faculdade meu plano perdeu o sentido, já que eu não me identificava com minha escolha profissional.

Durante a faculdade tive que aprender a administrar a depressão, crises de ansiedade e síndrome do pânico. Eu não tinha perspectiva de futuro, apesar de me considerar uma pessoa com ótimos resultados até então. Era a “retirante nordestina” que tinha feito escola pública e passado no vestibular da Federal com nota máxima na redação.

Fiquei no Direito com uma única motivação: estabilidade! Coloquei na cabeça que tudo que eu precisava fazer era passar em um concurso e depois disso ficaria livre pra pensar sobre vida, já que dinheiro não seria mais uma preocupação.

A faculdade acabou em dezembro de 2013, eu tinha passado na OAB uns 05 meses antes, então tudo que eu sentia era uma grande pressão. Não gostei da minúscula experiência que tive com a advocacia, reforcei minha crença de que passar em um concurso era minha única opção.

Nesse  período de  pós faculdade eu fiz terapia, me envolvi com processos de coaching, fiz aula de teoria musical, clarinete, saxofone, automaquiagem, passei em um processo seletivo e cursei durante um tempo um curso de “técnico em cozinha”. Aprendi a administrar melhor meu dinheiro, maratonei várias séries, li dezenas de livros, dei aula na igreja  e no tempo que sobrava eu recorria ao meu material:  Como passar em provas e concursos.

Não precisava de muita observação para perceber que eu não tinha vontade nenhuma de passar em um concurso. O fato é que durante todo esse tempo eu nunca tive o comprometimento necessário com o desafio de alcançar uma nomeação. Eu não me considerava irresponsável, meu único problema era a ausência de realização quando eu me imaginava na rotina de funcionária pública.  

Até meados de 2018 eu flertei com meu lado concurseira. Eu sabia que não queria ser funcionária pública mas tinha medo de largar a única chance que eu tinha de obter estabilidade.

Certo dia, em uma dessas voltas que o mundo dá, tive contato com uma escola de desenvolvimento pessoal e com eles eu fiz 03 testes: um definia meu tipo de personalidade, o outro minhas âncoras de carreira e o último, minhas forças pessoais.

Foi aí que eu descobri porque me sentia tão sem esperança em relação ao universo jurídico! Meu tipo de personalidade é influente-dominante, gosto muuuuiiiiito de interação social e poder garantir resultados. Sou naturalmente inovadora, informal e descontraída, habilidades que volta e meia tinha que encaixotar pra me adequar ao universo jurídico.

A maioria das minhas forças pessoais está ligada à transcendência (apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, bom humor e espiritualidade). Eu tinha pouquíssimo contato com elas na minha rotina jurídica, o que me deixava extremamente apática.

E finalmente, o que mais me chocou: minhas âncoras de carreira, as principais motivações pra eu trabalhar. Em uma ordem de importância, estabilidade está entre as últimas. A principal é Autonomia e Independência, seguida de Estilo de Vida e Competência Técnica-Funcional.

Isso significa que eu sou uma pessoa que gosta de definir meu trabalho do jeito que faz mais sentido para mim, sem abrir mão da flexibilidade em relação a onde e como trabalhar. Além disso, sou uma pessoa que valoriza absurdamente o crescimento contínuo, tenho a necessidade inata de avançar.

Era por isso que eu me sentia tão infeliz! Eu estava violando a minha forma de apreciar a vida! Esse resultado foi meu primeiro trampolim. A partir disso, me inscrevi em uma formação em coaching, onde mais pontes internas foram restauradas, culminando naquele dia em que meu marido me falou que eu aparentava estar mais leve! Não era só aparência. De fato, algo tinha destravado dentro de mim, eu tinha tomado coragem de assumir minha essência, finalmente saí do armário!!!

Durante todo esse processo de autoconhecimento, aprendi a honrar e respeitar a minha história. Eu amadureci muito, meu nível de gratidão e satisfação pessoal aumentaram drasticamente, eu consegui encontrar o meu próprio caminho e sei que tudo que aconteceu comigo foi extremamente necessário para que eu chegasse até aqui, nessa versão atual.

A minha transição em relação ao Direito está acabando. Entreguei -me totalmente ao universo da inteligência emocional. Isso não significa que será um adeus ao mundo jurídico. Eu sinceramente acredito que posso voltar em um formato que seja mais compatível com minhas habilidades, esse apenas não é meu foco atual.

Se hoje eu pudesse voltar ao passado e orientar a Valéria de 13 anos de idade, a única coisa que eu diria pra ela seria “Valéria mermã, tu tá tão iludida! Mas se permita fazer escolhas erradas, porque navegar nas ondas da vulnerabilidade será uma das melhores experiências que você terá na vida!”

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